Adolescentes medrosos e incapazes de amar - veja a entrevista com o Dr Hélio Borges

Dominam tudo o que é “maquinaria” moderna por passarem muito tempo em frente aos ecrãs, mas perdem as competências sociais e a capacidade de se relacionarem com os outros humanos.

 

Passam a vida agarrados ao computador, ao tablet ou ao telemóvel. “Está na idade do armário!” - justificam os pais dos adolescentes. Mas será que temos a verdadeira noção do que vai acontecer aos nossos filhos se não os contrariarmos? Será que sabemos as verdadeiras repercussões que estes comportamentos terão na vida adulta? Porque também nós, enquanto jornalistas, estarmos preocupados, decidimos pedir ajuda ao Dr. Hélio Borges, psicólogo clínico.

 

É certo que os pais ficam mais descansados com os filhos em casa, fechados nos seus quatros, agarrados a smarthphones, tablets e computadores. Porém, não brincam, não interagem, não comunicam, não caem, não se sujam, não correm riscos... Afinal, que geração é esta?

 

“Tal como as anteriores, esta geração é apenas o reflexo da educação dada pelos pais. Se não são incentivados e educados para serem autónomos serão naturalmente mais dependentes”, começa por dizer-nos o psicólogo.

 

Tendo em conta o que os miúdos decidem é fechados num quarto, atrás de um ecrã, protegidos por quatro paredes, como serão capazes de tomar decisões, enquanto adultos, na vida real?

 

“Essa maturidade, quando da tomada de decisão, acaba sempre por acontecer. Atualmente tende a surgir numa idade mais tardia. O que é também explicado pelas forma- ções académicas serem cada vez mais extensas levando a que os jovens adultos entrem cada vez mais tarde no mercado de trabalho”, explica o Dr. Hé- lio que também salienta para a importância de não generalizarmos uma vez que “a realidade dos jovens não é homogénea” e que nem tudo está perdido, incluindo as competências sociais e a capacidade de estabelecer relações saudáveis, não só de amizade como de amor/sexo.

 

“Depende muito da personalidade de cada um e do meio social onde crescem. Tem se registado um aumento de depressões e de ansiedade social nos últimos anos, que pode estar relacionado pela maior utilização de formas de comunicação indireta como mensagens de texto, redes sociais, chats, horas a navegar na Internet que dão uma falsa sensação de socialização e integração”. Depois, cara a cara e olhos nos olhos, esta geração é tí- mida e menos capaz de estabelecer uma conversa.

 

 

TIMIDOS E ASSEXUADOS 

 

 

Recentemente, Jean Twenge, a professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos Estados Unidos, desenvolveu uma pesquisa que resultou em dados que mostram que os jovens de hoje revelam níveis maiores de infelicidade/ansiedade/depressão e solidão. Para o psicólogo Hélio, esta geração, faz essencialmente falta “desenvolver competências de vida, serem autónomos, socializar de forma presencial e não por ecrãs. Além da formação profissional, a prática de atividades desportivas e artísticas é também um grande auxílio”. Na vida adulta, esta geração smarthphone, em resultado da falta de competências sociais, pode sofrer mais de solidão do que as gerações anteriores. O mesmo inquérito refere haver ainda uma maior percentagem de pessoas socialmente inadaptadas e com uma maior predisposição para doenças psicopatológicas devido a falta de competências sociais. No entanto, nem tudo é pernicioso pois a integração das novas tecnologias no nosso quotidiano ajuda as gerações mais jovens a serem mais tolerantes, a terem um maior espírito crítico e a serem mais empreendedoras do que as gerações anteriores.

 

Por outro lado, estes miúdos e miúdas estão bem informados “bebem menos e não gostam de correr riscos…” mas também amam menos e exploram menos a sua sexualidade. Com as devidas precauções, é positivo para o desenvolvimento dos adolescentes explorar esse lado da vida (os primeiros beijos, as primeiras carícias (os chamados apalpões), coisa que nem todos estão a iniciar porque passam a vida sozinhos. Para o Dr. Hélio: “Essa é uma consequência da falta de competências sociais. Tem como principal reflexo o medo de se magoarem emocionalmente. Este problema está muito presente noutros países desenvolvidos. O exemplo mais premente é o Japão em que uma grande percentagem das gerações mais jovens recusa-se a criar laços emocionais reais com o sexo oposto, o que se reflete na queda da taxa de natalidade e onde a indústria do sexo está muito mais desenvolvida do que na maioria dos países”.

 

 

ANDAMOS A COPIAR OS FAMOSOS

 

 

Não fosse o ser humano ter a necessidade de imitar o próximo, e tudo seria mais fácil. “Tal como um carro novo, ou as nossas últimas férias, os nossos filhos também podem tornar-se um objeto de ostentação nas redes sociais. Estes comportamentos são, muitas vezes, copiados de figuras públicas, representam a nossa necessidade em sermos bem sucedidos e acima de tudo que os outros percebam isso”, descodifica o psicólogo Hélio Borges. Kim Kardashian e uma das famosas mais “copiadas” da internet.

 

 

ADULTOS TAMBÉM SÃO VÍTIMAS

 

 

Assim como os mais novos, também os adultos são vítimas dos efeitos dos smarthphones e de toda esta histeria coletiva com o que se partilha no Facebook: O leite faz mal, o Mundo é um lugar perigoso, as picadas dos mosquitos podem ser letais. Existe uma pressão muito grande para sermos os melhores a educar e a proteger as nossas crias. “Sem dúvida, existe um grande mimetismo e pressão social para sermos bons pais. Mais do que provarmos a nós próprios, temos que também prová-lo aos outros e às redes sociais têm um efeito perverso neste campo”, destaca o médico que ainda lança o alerta: “Pode ser necessário algum acompanhamento sobretudo quando sentem que têm dificuldades em encontrar um equilíbrio e estão a culpabilizar-se sobre o seu comportamento”.

 

 

A PROMESSA DE MELHORES PAIS

 

 

Perante este cenário, quase dantesco, o que podem os pais fazer? Os pais desta geração são maus pais?

 

“Não são maus pais, apenas tentam fazer o que lhes parece ser o melhor para os filhos. Não nos podemos esquecer que esta é uma geração de filhos únicos que se tornam o centro das atenções e preocupações de toda a família. Basta ir a saída das escolas para ver um exemplo prático, quando vemos que grande parte dos pais vão buscar os seus filhos de carro com o argumento que andar de transporte público é perigoso para as crianças. Na prática somos considerados o terceiro paìs mais seguro do Mundo. A solução passa sempre por fomentar a independência e a autonomia”, destaca o psicólogo.

 

A verdade, porém, é que exageramos: só lhes damos leite sem lactose, o protetor solar é 50 ++, para andarem de patins os nossos filhos usam tantas proteções que parecem astronautas… E viver? Sentir? Passamos a vida a dizer que no nosso tempo já íamos sozinhos para a escola, mas a verdade é que não os deixamos dar um passo sem estarmos no encalço. O psicólogo clínico destaca a importância de “encontrarmos um equilíbrio”, o que reconhece que “nem sempre é fácil” e deixa uma dica: “Temos de nos colocar no lugar dos nossos filhos e fazer com eles o que faríamos na mesma situação”.

 

Os progenitores devem lembrar-se que mais importante do que criticar é agir. “As crianças de hoje são mais estimuladas e têm um acesso à informa- ção muito maior. Apesar dos problemas referidos, temos que saber tirar vantagem destas qualidades transmitindo aos nossos filhos valores que promovam a sua autonomia. Se assim for esta geração será muito bem sucedida.”

 

 

Fonte: Carla da Silva Santos - Revista Maria (08/09/2017)