Como evitar e não enlouquecer com a crise dos 30 anos na carreira

A expetativa frustrada de alcançar um patamar elevado ou um estilo de vida diferente tem levado muita gente a procurar ajuda para reavaliar escolhas

 

Definir desde cedo os passos profissionais, cursar graduação em uma instituição de destaque, fazer intercâmbio, atuar como trainee, ter MBA renomado, conquistar postos de liderança em empresas globais. São muitas as metas de carreira das novas gerações. Mas, mesmo seguindo a cartilha, é comum chegar a uma fase em que os questionamentos são inevitáveis. É a chamada crise dos 30 anos.

A psicóloga Bruna Tokunaga Dias, especialista em transições de vida e carreira da consultoria Cambridge Family Enterprise Group, estuda há tempos os conflitos profissionais, especialmente de quem tem entre 28 e 35 anos, foco de sua tese de mestrado. “As pessoas percebem que se tornaram adultas e, apesar de ainda serem jovens, não são tão novas assim para fazer tudo de novo”, diz. “Então, precisam lidar com essa frustração.”

As análises de Bruna, que lidera projetos de planeamento estratégico familiar, governança e desenvolvimento da próxima geração para famílias empresárias, tornaram-se livro, A Crise dos 30: a adolescência da vida adulta, recém-lançado pela editora Integrare. A seguir, ela revela as saídas que podem fazer essa fase ser percorrida de uma maneira mais leve e feliz.

 

Quais são as principais características da crise dos 30 anos?

 

Ela pode manifestar-se de forma repentina ou ir acontecendo aos poucos. Cansaço extremo, questionamentos sobre o modelo de vida atual, adoecimento físico ou emocional são algumas das suas principais características. Tanto homens como mulheres passam por isso e os motivos são semelhantes. James Hollis, no livro A Passagem do Meio, afirma que “o meio da vida” chega antes para as mulheres e mais tarde para os homens. Em geral, o processo manifesta-se com uma insatisfação inexplicável, uma vontade de recomeçar ou jogar tudo para o alto e fazer diferente. As pessoas percebem que cresceram, tornaram-se adultas e que, apesar de ainda serem jovens, não são tão novas assim para fazer tudo de novo. Então, precisam lidar com essa frustração. Chama a atenção a quantidade de pessoas doentes física e emocionalmente, com perturbação de pânico, depressão, gastrite grave e fibromialgia. Em geral, esse adoecimento vem acompanhado de uma série de reflexões e convida a olhar para tudo com uma nova perspetiva.

 

Como essa crise impacta a vida profissional?

 

É possível continuar produzindo, mas desconectado emocionalmente da atividade, o que diminui a eficiência e o compromisso. Essa desconexão leva à desmotivação. É quando o profissional procura ajuda ou então acaba por deixar-se estar em piloto automático, o que, em alguns casos, pode levar a uma queda no desempenho que culmina em más avaliações ou até em demissão. Em casos mais graves, pode, inclusive, levar ao afastamento por adoecimento.

 

Na sua pesquisa, você observou que as pessoas fazem questionamentos existenciais a partir de dilemas de carreira. Como isso acontece?

 

Essa geração dá um peso muito grande ao lado profissional, o que faz com que sua identidade esteja diretamente relacionada ao trabalho. Porém, muitas vezes, é possível notar que a insatisfação maior é consigo, com o estilo de vida, com o que ocorre fora da empresa. Isso exige uma revisão mais profunda com relação às escolhas feitas e aos próximos passos.

 

Quais são os questionamentos internos comuns da adolescência que a geração que hoje está na faixa dos 30 anos tem trazido à tona? E por que isso está a acontecer?

 

A ideia de que toda escolha é muito importante e para sempre, sem retorno, é uma delas e faz com que as pessoas deem um peso muito grande às suas decisões, como a carreira a seguir. Outras características são a comparação e a competição, incentivadas desde cedo: “precisa ser o melhor para passar nos exames nacionais do 12º ano e inserir-se no mercado de trabalho” é um pensamento que as acompanha. Comparação e competição são fontes de muita frustração. Mas o principal questionamento tem a ver com a ideia de que o trabalho é bom o tempo todo. A vida profissional não é como a escola, em que ter uma boa nota leva-nos à próxima fase. No trabalho, o cumprimento de tarefas nem sempre será valorizado no tempo que o profissional imagina.

 

Como procurar saídas?

 

O que prejudica muitos é não conseguir ver o fim do túnel. Por isso, mesmo que esteja insatisfeito, é fundamental fazer um plano de curto, médio e longo prazo. Saber que é por um tempo determinado, mesmo que pareça distante, ajuda a lidar com a situação. O que não pode é fingir que nada está a acontecer. Falar sobre o assunto é uma grande ajuda, pois é comum achar que todas as pessoas a nossa volta vivem felizes e realizadas, o que não corresponde à realidade. Perceber que os outros têm conflitos e questionamentos semelhantes e aprender sobre como lidam com isso colabora para ampliar o repertório de possibilidades. Procurar apoio de um profissional também pode ser essencial nessa etapa de desenvolvimento e amadurecimento.

 

É válido começar investindo num passatempo?

 

Sim. Durante o período que não dá para mudar a rotina, é importante incluir na agenda atividades que gostamos, pois o trabalho não pode e não deve ser a única fonte de realização. Para fazer uma transição, é importante iniciar outra atividade com a qual se identifica. Tenho acompanhado pessoas em que o seu passatempo se torno o seu plano B e, em alguns casos, plano A. É no movimento que as coisas acontecem. Não adianta a espera o dia em que haverá mais tempo para planear a carreira ideal.

 

Fonte: Karina Fusco em exame.com (25/01/2018)