Psicologia também é uma arma contra o cancro

Para muitos doentes oncológicos, o apoio psicológico é de extrema importância para o sucesso do tratamento médico

 

"Imagine que vai a 200 quilómetros por hora mas não tem noção. Comigo aconteceu o contrário. Ia a 200 à hora e tinha consciência disso, mas não dominava nada." É assim que Armindo Pacheco, 68 anos, recorda uma parte do processo após o diagnóstico de cancro de pulmão, em setembro de 2015. "Não entrei logo em pânico", diz. Foi tudo muito rápido. TAC, biopsia, cirurgia. Menos de dois meses depois de descobrir que tinha um tumor maligno já estava a ser operado. "Depois fiz quimioterapia e sentia-me espetacular. Estava tudo a correr bem até que começaram a surgir febres altas." Foi-lhe detetada uma fibrose que o obrigou a novo internamento. Quando se viu novamente internado, o professor aposentado sentiu necessidade de pedir apoio psicológico. "Foi muito importante. Fez-me ver que, pelo facto de andar ofegante, nervoso e excitado, os medicamentos não iam ter o mesmo efeito." Com esse apoio e a ajuda dos amigos encontrou o equilíbrio. "Agora sou a calma em pessoa. Modifiquei a minha vida em 200%." Hoje está recuperado - "não curado" - e terá de fazer vigilância durante os próximos cinco anos.

 

Bárbara Parente, coordenadora do Instituto CUF de Oncologia no Porto, diz que "qualquer doente com diagnóstico de cancro tem um tratamento especializado na área de psico-oncologia e de cuidados paliativos, que não são cuidados de fim de vida". O objetivo, explica, é aumentar o bem-estar dos doentes que são seguidos naquela unidade portuense. "É para todos os doentes, seja em fase intermédia ou avançada, na qual já só se faz terapêutica de suporte". Segundo a pneumologista com diferenciação na área do cancro do pulmão, "é extremamente importante o doente estar de bem consigo e aceitar a doença". "Se entender a doença e se quiser tratar, as suas defesas melhoram. É mais fácil tratá-lo", adianta. Com o apoio psicológico, o doente oncológico "vê uma luz ao fundo do túnel, uma perspetiva de vida, esperança". Ao cuidar da mente, com o apoio psicológico, e dos sintomas, nos cuidados paliativos, Bárbara Parente diz que é possível "tratar melhor o doente" do ponto de vista médico. Quando um doente chega é feita uma avaliação de distress. Segundo Magda Oliveira, especialista em psico-oncologia, esta ferramenta permite "conhecer melhor o doente" e "identificar fatores de risco e de proteção que o possam tornar mais resiliente perante as adversidades que a doença traz". Ao mesmo tempo, os profissionais de saúde podem "sinalizar o risco de desenvolvimento de psicopatologia e dificuldade de adaptação à doença."

 

Médicos referenciam doentes

 

Há casos em que os doentes ou os familiares mais vulneráveis são referenciados pelos médicos ou pelos enfermeiros e outros em que é o próprio utente ou familiar que pede ajuda. "Nem todos querem, nem todos precisam." Para Magda Oliveira, é importante "desconstruir a ideia de que quem recorre são as pessoas que não estão bem". Não é sempre assim. "Não tem necessariamente de existir um quadro grave. As pessoas sentem que podem encontrar novas estratégias para lidar com a doença de uma forma mais eficaz." Embora também exista a noção de que "quem recorre mais são os doentes recém-diagnosticados", não é isso que acontece. "Sigo mais doentes em fase de sobrevivência", adianta a psicóloga. Estes já se encontram sem a doença e a tentar recomeçar a vida que tinham antes de lhes ser diagnosticado o tumor. "Mas sentem-se diferentes e encontram as coisas de forma diferente. Às vezes é aí que surge uma maior vulnerabilidade."

 

Magda Oliveira diz que o impacto que um diagnóstico de cancro tem depende "da história prévia da pessoa, do tipo de diagnóstico e da fase em que é feito, do tipo de tratamento e dos efeitos secundários que pode vir a ter". É a chamada "crise psicossocial, um acontecimento inesperado que rouba estabilidade e a possibilidade de a pessoa manter a vida que tinha". E nem sempre é um choque. "Há doentes que manifestam uma resposta emocional de alívio." Isto porque não sabiam o que tinham e a incerteza pode ser muito perturbadora.

 

Familiares pedem apoio

 

No que diz respeito às famílias dos doentes oncológicos, quem mais recorre ao apoio psicológico são os "familiares de doentes em fase avançada", nomeadamente os filhos, os maridos, as esposas e os pais. "Cada vez mais há doentes muito jovens e assiste-se a uma inversão de papéis", adianta a especialista em psico-oncologia.

 

Fonte: Joana Capucho - Diario de Noticias (10-03-2017)