Somatização do coronavírus: como é possível sentir todos os sintomas da covid-19 sem ter se infectado

Fonte: BBC News, José Carlos Cueto (06/04/2020).

 

"Do coronavírus, podemos sentir a febre, a dor de cabeça e até tossir sem ter a doença. Tudo é possível".

Isso foi dito em entrevista à BBC News Mundo por Emiliano Villavicencio, psicólogo e chefe da pós-graduação da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade de La Salle, na Cidade do México.

O acadêmico se refere à somatização, um processo que ele define como "a manifestação de sintomas físicos de um problema psicológico".

A somatização é reconhecida no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicado pela Associação Psiquiátrica Americana dos Estados Unidos. Villavicencio alerta sobre a situação atual de pandemia em relação a como o medo da emergência de saúde causada pelo coronavírus pode causar os sintomas da covid-19 em alguns pacientes.

 

Esses sintomas são reais e podem confundir as pessoas, fazendo-as acreditar que contraíram a doença. Mas, no caso da somatização, o quadro clínico não é causado pelo vírus, mas por um estado de ansiedade e preocupação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os sintomas mais comuns da covid-19 são febre, tosse seca, mal-estar e dificuldade para respirar - embora em vários casos tenham sido relatadas secreções nasais, problemas gástricos, perda de olfato, entre outros. "Na somatização, se o paciente acredita que sua cabeça dói, é porque realmente dói, só que a explicação para essa dor é psicológica", explica Villavicencio. O especialista conversou com a BBC News Mundo sobre como detectar essa condição, diferenciá-la da hipocondria e evitá-la em meio a essa "superexposição a notícias sobre o coronavírus".

 

Sintomas reais

 

Diante da emergência sanitária, Villavicencio conta como está aumentando o número de pacientes com sintomas psicossomáticos em seu consultório.  "Pacientes completamente saudáveis podem sentir todos os sintomas do coronavírus, é normal. Somente nestes casos, tentamos tratar o medo psicológico que gera os sintomas, em vez de receitar medicamentos", explica o especialista. "Durante minha carreira, vi gestações psicológicas, onde uma pessoa vai à sala de parto e dá à luz um bebê que só existe em sua mente. Existem até pacientes que sofrem de paralisia de algum membro do corpo. Então, imagine como é fácil desenvolver sintomas tão comuns como uma dor ou tosse repentina", continua Villavicencio. Em situações desse tipo, os especialistas primeiro descartam qualquer causa física à condição e depois procuram uma razão psicológica que explique os sintomas. Muitas vezes eles descobrem, por exemplo, que é uma pessoa hipocondríaca. Segundo o Sistema Nacional de Saúde Britânico (NHS, por sua sigla em inglês), a hipocondria é um medo excessivo de adoecer, que às vezes pode dominar a vida cotidiana. Nesse caso, no entanto, Villavicencio pede para que seja diferenciado esse distúrbio do desenvolvimento de um quadro psicossomático.

 

Fator externo

 

"A diferença entre uma pessoa hipocondríaca e um paciente que manifesta sinais psicossomáticos se deve à influência de um fator ambiental. O hipocondríaco não precisa desse elemento externo — neste caso a emergência de saúde — para desenvolver ansiedade e sentir os sintomas de uma doença", esclarece Villavicencio.   A superexposição às notícias sobre o coronavírus está por trás do aparecimento de sintomas psicossomáticos. Por esse motivo, Villavicencio aconselha a cuidar não apenas da saúde física, mas também da saúde mental. Ele pede para analisar as notícias e não simplesmente "engoli-las", conhecer bem o que implica ter o coronavírus, "cuja mortalidade geral não é tão alta", e consultar "fontes confiáveis de informação e não apenas uma publicação no Facebook". "Uma pessoa superexposta pode construir facilmente fantasias catastróficas, distorcer a realidade e produzir um estado psicossomático. A partir das ideias e fantasias, o atendimento médico dos países pode ser prejudicado", alerta o especialista.